quarta-feira, 15 de março de 2017

500 anos de Reforma: Argula von Grumbach, defensora da fé

Argula von Grumbach,

 defensora da fé


Argula von Grumbach foi uma mulher valente que levantou a sua voz e a sua pluma para defender a Reforma desde os seus inícios. Argula tomou parte nos debates teológicos da época, desenvolvendo um ardente trabalho apologético a favor das doutrinas bíblicas e em defesa de Lutero, de Melâncton e doutros Reformadores. Diz-se que foi a primeira escritora protestante, e uma das poucas mulheres do seu tempo cujos poemas, cartas e escritos doutrinais se converteram em verdadeiros bestsellers da época, com dezenas de milhares de exemplares em circulação.



Argula nasceu em 1492 em Beratzhausen na Baviera, na Alemanha, filha de Bernhardin von Stauff e Katharina von Toerring, ambos de famílias nobres empobrecidas. Aos dez anos, foi enviada pelos pais para a corte do duque da Baviera, Alberto IV († 1508). Aí foi educada com as três filhas do duque, segundo o costume da época. Recebeu, por isso, uma esmerada educação. Quando foi enviada para a corte da Baviera recebeu dos pais um presente raro e caro para a época: uma Bíblia Koburger de 1483. Seus pais faleceram em 1509 vítimas da peste. Em 1515/6 enquanto ainda estava na corte do duque da Baviera casou-se com Friedrich von Grumbach, de família nobre da região da Francónia, ao qual deu quatro filhos.


Argula von Grumbach adotou a doutrina de Lutero, com quem travou amizade depois de 1522, tornando-se numa zelosa estudante da Bíblia. O seu primeiro passo na atividade literária foi resultado pela condenação de Arsacius Seehofer. Em 20 de setembro de 1520, não havendo ninguém que protestasse contra a forçada negação do Evangelho feita por Seehofer, ela endereçou ao reitor da universidade do Ingolstadt um protesto, que foi publicada e circulou amplamente.


A carta começava assim: «Ao honorável, digno, ilustre, erudito, nobre e excelso reitor e a toda a faculdade da Universidade do Ingolstadt: Quando ouvi o que tinham feito a Arsacius Seehofer sob ameaças de prisão e de fogueira, o meu coração e os meus ossos estremeceram. O que ensinaram Lutero e Melâncton exceto a Palavra de Deus? Vós os condenastes. Não os refutastes. Onde ledes na Bíblia que Cristo, os Apóstolos e os profetas encarcerassem, desterrassem, queimassem ou assassinassem a alguém? Dizem-nos que devemos obedecer às autoridades. Correto. Mas nem o Papa, nem o Imperador, nem os príncipes têm nenhuma autoridade acima da Palavra de Deus. Não penseis que podeis tirar a Deus, aos profetas ou aos apóstolos do Céu com decretos papais tirados de Aristóteles, que nem sequer era cristão. Não ignoro as palavras de Paulo de que a mulher deve guardar silêncio na igreja (1Tm 1:2), mas, quando nenhum homem quer ou pode falar, impulsiona-me a Palavra do Senhor quando disse “Aquele que Me confesse na terra, Eu o confessarei e aquele que Me negue, Eu o negarei.” (Mt 10:32; Lc 12: 8)


Procuram destruir todas as obras de Lutero. Neste caso, terão de destruir o Novo Testamento, que ele traduziu. Nos escritos em alemão de Lutero e Melâncton, não encontrei nada herético… Inclusivamente se Lutero se retratasse, o que tem dito continuaria sendo a Palavra de Deus. Eu estaria disposta a ir e debater convosco em alemão, e assim não precisariam usar a tradução da Bíblia do Lutero. Podeis usar a de  Koburger de 1483,que se publicou há 30 anos. Tendes a chave do conhecimento e fechais o Reino dos Céus. Mas estais derrotados. As notícias do que tendes feito a este jovem de 18 anos chegaram já a tantas cidades que logo todo o mundo o saberá. O Senhor perdoará a Arsacius, como perdoou a Pedro, que negou ao Seu Mestre embora não o tivessem ameaçado com a prisão nem com a fogueira. Ainda sairá muito bem deste moço. Não vos envio desvarios de mulher, mas a palavra de Deus. Escrevo como membro da igreja de Cristo contra a qual não prevalecerão as portas do inferno, ao contrário da igreja de Roma. Deus nos conceda a Sua graça. Ámen»


Pessoalmente, entretanto, ela não recebeu nenhuma resposta. As autoridades da universidade não se dignaram responder a uma mulher, mas solicitaram ao duque que a castigasse. O chanceler da Baviera Leonhard von Eck (c. 1475-1550) aconselhou a destituir o seu marido e enviá-la a ela para exílio. O seu marido, que era católico, foi destituído de governador de Dietfurt, uma região da Baviera. Os argumentos para que o marido de Argula perdesse o trabalho foram: “Ele não foi capaz de impedir que a sua esposa escrevesse, enviasse e publicasse cartas defendendo ideias reformadas.”


Argula von Grumbach continuou tendo um vivo interesse pela Reforma e manteve uma boa relação com os Reformadores até que morreu aos 64 anos de idade neste dia, 23 de junho de 1568, em Zeilitzheim na Baixa Francónia, situada no norte do estado da Baviera.


Argula von Grumbach é reconhecida hoje, a partir de pesquisas históricas, como sendo a primeira escritora protestante.Ela escreveu cartas que foram publicadas como panfletos, defendendo o ideal da Reforma Protestante com conhecimento teológico e citações bíblicas. E, desta forma, também entrou em conflito com os poderes da sua época. Foram publicadas oito cartas da sua autoria, escritas provavelmente entre setembro de 1523 e outono de 1524. Ela também manteve correspondência e conversas pessoais com os Reformadores. Martinho Lutero referiu-se a ela como “um instrumento especial de Cristo.”


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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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